Maria,
Parece que os presados lusos se queixam de dificuldades no que à escrita do sexo diz respeito. Problema deles, querida, não sou escritor. E por isso me atrevo a falar deste desejo que só foi obsceno enquanto secreto; e foi-o tempo demais...O teu ventre. Ao qual não farei a injustiça de chamar liso, seria torná-lo um entre muitos. Recordo a sua doce ondulação, atravessada pela proa matreira e preguiçosa da minha língua, abandonado que foi o porto inundado da tua.
Sentir esses olhos cravados no meu navegar entre bosque e montes, os dedos acariciando-me o cabelo em falso abandono, prontos a evitar que vagabundeie por países menos acesos. Descer. Exigir-te a prisão das coxas, antes de fazer desabrochar as margens desse rio, cujo caudal depende tanto do desmaio das tuas barragens como da vigília marota da minha boca. Ficar atento, sem me distanciar milímetro ou fantasia: os rins desprezando o solo, o gemido risonho, o grito abafado. Parar. O teu protesto, que esconde aprovação gulosa. De novo à estrada e aos degraus, até ao espasmo que me deixa maravilhado por te sentir longe, longe e mais perto do que nunca.
Maria, tenho a certeza de que o prazer das mulheres é o quebra-cabeças favorito de Deus.
Boa noite.
Júlio Machado Vaz
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